Por Magno Lima
Quando pensamos na palavra “ódio”, nossa mente imediatamente imagina um cenário de violência, gritaria ou sentimentos inflamados de raiva e hostilidade. Para nós, o ódio é essencialmente uma tempestade emocional. No entanto, as Escrituras foram geradas em uma cultura e língua muito distintas da nossa. No hebraico bíblico, a palavra traduzida como odiar é sanê (שנא), e seu significado vai muito além de um coração cheio de rancor.
Reduzir esse conceito à ideia de que “ódio significa apenas amar menos” é um erro interpretativo que desidrata a seriedade do texto sagrado. O conceito hebraico é mais amplo e relacional. Sim, sanê pode descrever uma hostilidade emocional profunda, como o rancor de Esaú por Jacó (Gênesis 27:41) ou a inveja dos irmãos de José (Gênesis 37:4). Mas, em outros contextos, o termo aponta para rejeição, afastamento, preterição e retirada do favor ou do cuidado.
Vemos essa amplitude quando o texto nos mostra Jacó e suas duas esposas. O relato diz que Jacó amava Raquel mais do que Lia (Gênesis 29:30), mas logo em seguida afirma que Lia era senuah, literalmente, “odiada” (Gênesis 29:31). A ênfase do relato está em sua condição de esposa preterida, colocada à margem do afeto principal de Jacó.
O mesmo pano de fundo linguístico orienta a leitura de “Amei Jacó, porém rejeitei [odiei] Esaú” (Malaquias 1:2-3; Romanos 9:13), entendida aqui como uma escolha de linhagem para um propósito específico na história da redenção, e não como um sentimento de rancor divino.
É também com atenção ao contexto que devemos entender as palavras desafiadoras de Yeshua em Lucas 14:26, quando fala sobre “odiar” pai e mãe a fim de segui-lo. Ele estabelece uma escala de prioridades: o Reino de Deus exige lealdade primária, diante da qual qualquer outro vínculo ocupa um lugar secundário. O chamado é à prioridade do discipulado, sem que isso se torne uma autorização para desprezar ou abandonar a família.
Essa dimensão relacional nos conduz a uma pergunta prática: o que acontece quando retiramos do próximo o cuidado que deveríamos oferecer? A própria Escritura nos fornece advertências severas sobre a omissão:
- O julgamento da omissão (Mateus 25:41-43): Na cena do julgamento das nações, aqueles colocados à esquerda são condenados por não terem socorrido os famintos, os sedentos ou os enfermos. A indiferença deles foi contada como uma rejeição ao próprio Cristo.
- A anatomia do coração fechado (1 João 3:17): O apóstolo João conecta diretamente a falta de ação com a ausência de amor: “Se alguém possuir recursos materiais deste mundo e, vendo seu irmão passar necessidade, fechar-lhe o coração, como permanecerá nele o amor de Deus?” Fechar o coração é uma escolha de afastamento relacional.
- A falsa ignorância (Provérbios 24:11-12): Tentar se esquivar da responsabilidade dizendo “Mas nós não sabíamos de nada!” não anula a nossa culpa diante daquele que sonda a nossa real intenção.
Conhece-te a ti mesmo
Muitas vezes, avaliamos nossa espiritualidade pela ausência de escândalos ou de explosões de raiva. Pensamos: “Eu não guardo rancor, logo, eu não odeio ninguém.” Mas, diante dessas advertências, precisamos fazer uma pergunta mais dolorosa: será que nossa indiferença esconde uma forma de rejeição que preferimos não reconhecer?
Na Parábola do Bom Samaritano, o sacerdote e o levita não aparecem agredindo ou insultando o homem caído na estrada. Eles o veem e passam de largo. O sofrimento estava diante deles, mas não interrompeu seu caminho. A negligência se manifestou justamente naquilo que deixaram de fazer.
Este entendimento precisa funcionar como um espelho para as nossas próprias almas. Quantas vezes, na pressa da rotina ou na bolha do nosso conforto, temos agido assim?
Quando reduzimos o sofrimento a uma estatística distante: reconhecemos que há pessoas sofrendo, mas evitamos que essa realidade nos alcance e nos mova à compaixão.
Quando decidimos que alguém não merece nosso tempo: classificamos certas pessoas como “trabalhosas” ou “inconvenientes” e usamos esses rótulos para dispensar qualquer investimento de atenção ou afeto.
Quando desistimos de nos importar: o sofrimento alheio deixa de nos incomodar, e passamos a tratar nossa própria frieza como algo normal.
E o que Deus odeia?
As Escrituras parecem deixar claro que Deus não nutre uma aversão à própria existência humana. Muitas vezes, propaga-se o raciocínio simplista de que, se Deus odeia o pecado e todos os homens são pecadores, logo Deus odiaria todas as pessoas. Para dar suporte a essa conclusão, costuma-se isolar passagens de forte teor poético:
Salmos 5:5: “Os arrogantes não são aceitos na tua presença; odeias todos os que praticam o mal.”
Salmos 11:5: “O Senhor prova o justo, porém a sua alma odeia o ímpio e o que ama a violência.”
Contudo, essa conclusão precisa ser examinada à luz da linguagem e do contexto bíblico. Quando encontramos expressões duras como em Oseias 9:15 “ali os odiei; por causa da maldade das suas obras os lançarei fora da minha casa; não os amarei mais” ou em Jeremias 12:8 “a minha herança […] levantou a sua voz contra mim, por isso a odiei”, vemos o peso do afastamento relacional, da quebra de aliança e da perda do favor devido à obstinação humana no erro. Essas palavras expressam a seriedade do juízo, sem que precisemos entendê-las como uma ausência intrínseca de misericórdia em Deus.
As Escrituras também descrevem concretamente as atitudes e os comportamentos que Ele abomina:
- As sete abominações (Provérbios 6:16-19): O texto menciona “olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que maquina projetos iníquos…”. São manifestações de uma vida que produz opressão, divisão e sofrimento ao próximo.
- O mal planejado (Zacarias 8:17): “Nenhum de vós pense mal no seu coração contra o seu próximo […] porque todas estas são coisas que eu odeio, diz o Senhor.” A condenação alcança a maldade cultivada no coração contra o semelhante.
- A hipocrisia religiosa (Isaías 1:14): Deus chega a dizer que Sua alma “odeia” os cultos e as festas solenes de um povo cujas mãos estão cheias de sangue. A religiosidade se torna repulsiva quando convive com a negligência do direito dos órfãos e das viúvas.
Essa leitura encontra seu ponto decisivo no Novo Testamento. João 3:16 anuncia o amor de Deus pelo mundo, e Romanos 5:8 declara que Cristo morreu por nós sendo nós ainda pecadores. Seu amor se manifestou quando ainda estávamos mergulhados no erro, alcançando uma humanidade que o rejeitava.
O equívoco das teologias deterministas que seguem aquele raciocínio está em confundir a incompatibilidade entre a santidade de Deus e a maldade com uma suposta ausência de amor pelas Suas criaturas. Deus não odeia o pecador: Ele odeia o pecado e as abominações que desumanizam e destroem. Sua resistência ao mal expressa o amor com que protege a criação e busca restaurar quem se perdeu.
Essa reflexão também nos obriga a examinar o desprezo humano. No Sermão do Monte, Yeshua aprofunda o mandamento contra o homicídio ao tratar da ira e do insulto dirigido ao irmão:
“Porém eu vos digo que qualquer um que se irar contra seu irmão sem razão será réu do julgamento. E qualquer um que disser a seu irmão: ‘Raka!’ será réu do tribunal. E qualquer que lhe disser: ‘Navál!’ será réu do fogo do inferno.” — Mateus 5:22, na formulação com os termos semíticos aqui utilizados.
A advertência precisa ser entendida com o peso que carrega. Palavras como “bobo” ou “tolo”, quando ouvidas apenas em seu uso cotidiano mais leve, podem nos fazer perder a gravidade do desprezo expresso nessa passagem. O que está em questão é a maneira como tratamos a dignidade do nosso irmão.
Quando rotulamos alguém como Raka ou Reiká, tratando-o como vazio ou inútil, o insulto pode funcionar como uma justificativa para dispensarmos nossa responsabilidade moral por aquela pessoa. Ao julgá-la sem valor, concedemos a nós mesmos a licença para não nos envolvermos com seu sofrimento.
Esse julgamento nem sempre é pronunciado em voz alta. O tribunal silencioso do nosso coração pode declarar que o destino do outro não nos diz respeito. E podemos ir ainda mais longe: ao tratá-lo como navál, podemos transformá-lo, em nosso próprio julgamento, em alguém “irremediável, que Deus rejeitou”. Nesse ponto, revestimos nosso desprezo de uma pretensa aprovação divina e usamos a religião para legitimar a recusa do socorro.
O Deus que ama
Vou tecer uma analogia: um pai amoroso pode decidir, muito antes de seus filhos atingirem a maturidade, que lhes dará educação, disciplina, cuidado e, no tempo oportuno, uma herança. O destino reservado aos filhos já está estabelecido em seu coração. Contudo, essa decisão não implica que o pai tenha determinado previamente cada escolha que eles farão ao longo da vida. Seu propósito é prepará-los para a plenitude da vida familiar. Nessa perspectiva, Efésios 1 descreve Deus preparando antecipadamente as bênçãos destinadas aos que estão em Cristo.
Essa compreensão preserva outro aspecto essencial da revelação bíblica: Deus é absolutamente soberano e pode escolher pessoas específicas para missões específicas. Ele chamou Abraão para formar uma nação, levantou Moisés para libertar Israel, consagrou Jeremias desde o ventre para o ministério profético, estabeleceu Ciro como instrumento de Seus propósitos e separou Paulo para anunciar o evangelho aos gentios. Entretanto, dessas escolhas particulares não decorre necessariamente uma regra universal segundo a qual Deus teria decretado, desde a eternidade, quem poderia ou não ser salvo. A eleição para uma missão histórica e a salvação eterna não são, obrigatoriamente, a mesma categoria.
O Deus Eterno toma a iniciativa de vir ao nosso encontro: chama, adverte, disciplina, promete redenção e, na plenitude dos tempos, envia Seu próprio Filho. Ele nos amou primeiro e preparou um caminho de salvação na pessoa de Mashiach Yeshua. Como o bom Pastor, busca o perdido, nos convence do pecado e nos conduz ao arrependimento.
Yeshua andou na contramão de toda indiferença. Sendo perfeitamente santo, aproximava-se das pessoas em sua fragilidade: tocava leprosos, sentava-se à mesa com os rejeitados e se compadecia das multidões aflitas. Ele demonstrou que amar exige aproximação e requer a disposição de interromper o próprio passo para carregar o fardo do próximo.
Se Deus é amor, e somos ordenados a “amar ao próximo como a nós mesmos”, então que amor seria este?
O amor bíblico não é medido pelo quanto gostamos das pessoas, mas pelo quanto nos recusamos a abandoná-las.
Que possamos observar nossas atitudes concretas com a mesma atenção que dedicamos aos nossos sentimentos. Podemos nos orgulhar de não odiar ninguém enquanto ignoramos exatamente as pessoas que Deus está nos chamando para amar. Quando decidimos que alguém não vale nosso cuidado, a ausência de hostilidade declarada não nos absolve da rejeição que praticamos.
Que o Senhor nos livre da hostilidade e também da indiferença que nos permite passar de batido diante de quem precisa de amor, afinal uma de nossas comissões é sermos imitadores de Cristo, não se afastando, mas aproximando.


Sê o primeiro